Guitarra aérea
Sentados na guia, com os pés na sarjeta, eles faziam um show para poucos. Na verdade, ninguém parou para ouvi-los. Poucos eram os que passavam por ali, nenhum que parasse. O mais novo tocava guitarra, com riffs e solos elaborados em um pedaço de cabo de vassoura. De olhos fechados e entregue ao momento, como só os grandes guitarristas fazem. O outro segurava um microfone imaginário e cantava a plenos pulmões uma música que não consegui identificar. Era uma mistura de inglês e português, acho, vai saber. A língua dos que cantam assim é outra, só deles.
Estavam estrategicamente sentados onde batia sol, já que o frio ainda castigava às 10h da manhã. Pareciam já estar bêbados… ou ainda. Mas não ligavam. Ao lado do ponto de táxi (um ótimo ponto comercial, diga-se de passagem), faziam um show para o mundo e para ninguém. Não esperei a música acabar para ver de onde viriam os aplausos, e invejei a simplicidade, mas também coragem deles, talvez pelo teor alcóolico em suas veias, quem sabe.
(Louback)