Do alto do umbigo
- Tudo muito engraçado, não? Você vem aqui, diz o que quer e o que não quer, me aponta um dedo na cara que eu não sei porque e depois sai como se nada tivesse realmente acontecido. Você vai simplesmente decidindo que tudo no mundo gira em torno do fato d’eu não ter conseguido atingir tuas expectativas. Mas será que você já parou pra pensar que acima do que a gente vive e viveu e ainda viverá existem as coisas que eu sinto? O modo como eu me respeito? Como é que eu ia corresponder e ser de uma forma específica, que atendia aos teus desejos, se isso me traía e matava por dentro? O teu silêncio agora prova que eu estou certo, embora isso não seja uma disputa. Creia-me, eu bem que quis. Mas não foi o que aconteceu. Então não venha cheia de razões, achar que pode me culpar pelo verso do poema do Bandeira, achando que a culpa é minha por não ter acontecido tudo que poderia ter sido e não foi. A culpa não é minha, cara moça, porque não existe culpa aqui. Há só um sentimento pronto para ser remoído e engolido, para se transformar em algo maior. Por que eu nunca escondi as coisas que eu sentia. Sempre te disse o que poderia e o que não poderia ser. O fato é que nós sempre quisemos coisas diferentes, e isso não vai mudar, enquanto você não mudar.
- Será?
[Jansen]