Na altura do plexo solar, talvez orgulho
Eu costumo roubar idéias de mim mesmo. Quando eu me distraio com alguma coisa, ou com qualquer pessoa que passa na rua, lá vou eu, sorrateiramente, e tiro do lugar a boa idéia que precisava ser maturada.
Perdi, playboy, não dá mais tempo de buscar na mochila o bloco de papel ou a caneta para anotar na mão as iniciais de coisa alguma. Está perdido para sempre, junto com o sono que você me tirou, junto com a paciência que o tédio me toma, junto com a marca do seu all-star no meu peito.
A idéia se foi e nunca mais vai voltar, eu até desisto de mandar equipes de busca, de tirar um cochilo, de rabiscar umas palavras no papel, num arremedo da idéia original. Não vai adiantar nada. E isso, para quem escreve e ama, é como se o malandro tropeçasse e perdesse de vez a navalha, o seu instrumento de defesa/expressão. Ou como se derrubassem molho de tomate no terno branco de linho do malandro, é como uma chaga, como um estigma, sabe-se que ali há alguém perdido ou até tocado, mas desorientado do verdadeiro caminho.
No meu caso é como se você tivesse corrido, mesmo com todos os cigarros, e pulado, e voado com os dois pés na minha direção. As pernas delicadas agora tesas, numa celebração da rigidez de caráter personificada na tensão dos seus músculos que agora voam e me acertam na altura do plexo solar. Um chute certeiro, capaz de me provocar uma ânsia de vômito, acompanhada de perfeita falta de ar, lágrimas rascantes vertidas em torrentes. Eu quase me orgulho de ter sido alvo de tal obra de arte.
Eu quase me orgulho.
[Jansen]